Património Histórico

Convento de S. Félix, em Chelas

Numa extremidade do vale de Chelas está edificado o Convento de Freiras Agostinhas ou Cónegas Regrantes, da invocação de S. Félix e Santo Adrião.

A data da fundação do Mosteiro, de características românticas, perdeu-se na origem dos tempos, o que para alguns historiadores atesta que foi edificado antes da nacionalidade portuguesa. Outros cronistas afirmam que a fundação do convento de Chelas terá sido anterior ao nascimento de Cristo e, defendem, que foi o primeiro templo pagão a ser convertido ao cristianismo.

Aqueles que defendem a origem mais antiga afirmam que o Convento de S. Félix foi construído no século VII antes de Cristo e que é a clausura mais antiga de Lisboa e seus arredores, tendo sido objecto de diversas remodelações.

Conta a tradição, descrita por Vilhena Barbosa, que no ano de 666 apareceram nos terrenos fronteiriços ao largo de Chelas os dois grandes caixões em mármore contendo as relíquias de S. Félix e dos seus doze companheiros, martirizados na Catalunha, no ano de 301. Os caixões navegaram durante três séculos no Atlântico, vindo parar ao local onde depois seria erigido o convento sob a invocação de S. Félix. Mais tarde, em 804, o conde Servando depositou no convento as relíquias de Santo Adrião e de Santa Natália. Desde essa data, o convento de Chelas passou a chamar-se de Santo Adrião e de S. Félix.

As relíquias dos 26 santos padroeiros do mosteiro foram colocadas, em 1604, em esculturas mandadas fazer por D. Luiza de Noronha, que as colocou nos altares da capela principal da igreja.

Um marco miliário, dedicado ao imperador Adriano, descoberto na zona da actual estrada de Chelas, e que provava ter sido aquela via uma antiga estrada militar romana, esteve durante muitos anos nos terrenos do convento.

D. Afonso Henriques, em 1147, D. Sancho I, em 1220-26, e D. Manuel, em princípios do século XVI, foram os principais obreiros das reconstruções.

A igreja, monumento nacional, tem um portal manuelino interessante e tinha muitos azulejos, na frontaria.

No Convento de S. Félix entrou, aos oito anos de idade, prisioneira com a mãe e a irmã do Marquês de Pombal, a célebre poetisa Marquesa de Alorna, que esteve no Convento até aos 18 anos.

O Convento de S. Félix sofreu diversas remodelações ao longo dos tempos. O grande terramoto quase o destruiu, tendo a igreja que ser reconstruída, praticamente, de raiz.

Durante o liberalismo, o convento foi profanado, perdendo o seu interior o aspecto religioso, uma vez que foi adaptado a outros fins.

As viúvas dos oficiais mortos no Ultramar, nos últimos anos de monarquia, foram aqui recolhidas. Do mesmo modo, o velho convento de cor parda, pertença do estado, serviu de residência a outras famílias pobres e aos operários da Fábrica da Pólvora. Esta unidade industrial – a Fábrica Nacional de Munições e Armas Ligeiras -, esteve aqui instalada, em 1955, e só anos mais tarde foi transferida para Braço de Prata.

No espaçoso largo, em frente do convento, houve, em tempos, muitos arraiais populares, que historiadores afirmam terem sido bastante concorridos.

Quanto ao vale de Chelas, os historiadores afirmavam que era bastante povoado, abrangendo uma área significativa. Atravessado ao meio pela linha férrea, o vale tem início junto ao Tejo, entre o Mosteiro da Madre de Deus e a antiga Fábrica dos Tabacos de Xabregas. Em tempos muito remotos, supõe-se que passasse pelo vale um pequeno braço do Tejo: um esteiro que acabaria por secar deixando, contudo, os terrenos férteis.

Um enorme pinheiro manso dava uma grandiosa sombra ao Convento de S. Félix e ao largo, numa zona onde predominavam os olivais e hortas verdejantes.

Convento de S. Bento de Xabregas ou Convento do Beato

O antigo Convento de S. Bento de Xabregas, que foi reconstruído recentemente pela fábrica “A Nacional”, ao abrigo das vantagens da lei Mecenato Cultural, está instalado numa das artérias que conduzem à Alameda do Beato. Aqui viveu o padroeiro da freguesia – frei António da Conceição que nasceu em Pombal em 1522, e morreu em 11 de Maio de 1602, tendo sido beatificado pela Santa Sé, posteriormente à sua morte.

A população de Lisboa, conhecedora dos feitos milagreiros do padre, há muito que o tratava por Beato António. O seu nome ultrapassou as paredes do Convento e estendeu-se à zona ribeirinha, onde hoje se compreendem os limites desta freguesia oriental.

No século XV, naquele local, erguera-se uma pequena ermida de invocação a S. Bento. Esta ermida, cuja origem se desconhece, fora propriedade da rainha D. Isabel, que a recebera de oferta do D. Estêvão de Aguiar, Abade de Alcobaça, após o seu casamento com o rei Afonso V. A rainha, segundo protocolo estabelecido para a oferta, deveria mandar ampliar a ermida, a fim de ali ser construído um hospício para os «Bons Homens de Vilar (de frades)», da congregação dos Frades Loios. A execução da obra passaria, porém, para as mãos do rei D. Afonso V, após a morte prematura da rainha em 1455, apenas com 23 anos e depois de ter lutado contra o sobrinho e o genro, em Alfarrobeira.

A bula de 1461, concedida pelo Papa Pio II ao rei de Portugal, autorizou que aqueles religiosos se passassem a intitular «Cónegos Seculares de S. João Evangelista», em memória da devoção da Rainha a este Santo. Igualmente, o convento deveria passar a designar-se de S. João Evangelista.

Para a história, no entanto, o templo de S. João ficaria sempre com o nome da pequena ermida que lhe dera origem: Convento de S. Bento de Xabregas, ou Enxobregas. Frei António da Conceição, um dos cónegos daquela Ordem, tendo beneficiado da sua amizade pessoal com o rei D. Sebastião, foi o grande obreiro da ampliação do templo. A amizade deste frade com o rei seria tamanha que, dizem vários historiadores, antes da trágica partida de Alcácer Quibir, veio D. Sebastião à Igreja de S. Bento de Xabregas, para se aconselhar com o seu confessor. Ironicamente, conta o olissiponense Sidónio Miguel, frei António teria realçado a nobreza da decisão do monarca e vaticinou a certeza de uma grande vitória sobre os infiéis.

O duque de Alba, considerado o melhor capitão da época sebastianina, também recebeu, de frei António, a bênção sagrada. Sentindo-se moribundo, após tomar conhecimento da possível morte do rei em terras africanas, em 1580, e antevendo a união ibérica, aquele nobre abandonou o paço da Ribeira e dirigiu-se a este templo oriental, onde viria a falecer.

Também o duque de Bragança, D. Teodósio, pai de D. João IV, o nobre que viria a liderar o movimento da restauração nacional, tinha por hábito vir à igreja de S. Bento de Xabregas, ouvir a palavra de frei António.

Na sequência do Terramoto de 1755, que não danificou o convento, devido à solidez dos materiais de construção, refugiaram-se nesta igreja os frades do Convento dos Loios, levando com eles as relíquias que puderam salvar. Julga-se que entre esses bens estivesse o túmulo da Infanta D. Catarina, que se diz estar na capela-mor da Igreja, ao lado dos túmulos dos Condes de Linhares. Pensa-se que, no próprio dia 1 de Novembro de 1755, tivesse vindo para o templo do Beato, a procissão do padre José Frazão, prior da Conceição Nova. Segundo conta João Baptista de Castro, a procissão, que teria saído da Conceição Nova com o Santíssimo Sacramento debaixo do pálio, teria sido surpreendida pelo terramoto. Não podendo voltar à igreja, porque a fachada se tinha sido aberto em duas, dirigiram-se então os penitentes para o Terreiro do Paço, tendo chegado ao Beato pelas dez horas da noite. Foi um coro choroso e triste de mais de três mil pessoas, a maioria das quais espoliada da casa e dos haveres, que recebeu abrigo no convento do Beato António.

O Real Hospital Militar ocupou parte do Convento, no século XVIII. Mas, a seguir à extinção das Ordens Monásticas e à profanação da Igreja, um incêndio inutilizou as instalações e atingiu o templo. Do sinistro, apenas se salvou a cozinha, o refeitório e o noviciado.

Depois de abandonado, o Convento foi espoliado das suas obras de arte em talha, pinturas e outras riquezas incalculáveis, às quais os cronistas se referem como tendo sido magníficas. O claustro deste edifício, por exemplo, foi apontado como revelando grandeza e sobriedade arquitectural, o que deixa transparecer a imponência magistral do templo.

Na capela-mor, onde estavam os túmulos dos Linhares, as paredes laterais eram revestidas a mármore. Aqui, estava um quadro mostrando S. João Evangelista, escrevendo o «Apocalypse» e várias imagens de Nossa Senhora, de S. João e de S. Lourenço Justiniano.

As outras capelas, treze na totalidade – cinco por cada lado do corpo da igreja, duas no cruzeiro e a capela-mor – eram dedicadas a S. Bartolomeu, à Senhora das Barracas, ao Senhor dos Passos e ao Santíssimo Sacramento. Na Igreja, na portaria, na capela do Reitor, no frontispício, no cruzeiro, no convento e nas capelas havia ricos painéis e notáveis azulejos.

Na escadaria conventual, em mármore branco e cor-de-rosa, que muitos historiadores consideravam ter sido uma das três notáveis escadas de conventos de Lisboa, houve em tempos, várias estátuas que desapareceram. Actualmente, a notável escadaria permanece muito deteriorada.

Em tempos anteriores a 1700, houve uma cerca à volta deste convento, onde predominavam os embrechados (mosaicos caprichosos, com seixos multicores, conchas, cristais, adornos de gruta, entre outros), fazendo lembrar um chafariz de brutescos com invenções de levantar água.

Há ainda a memória de uma gruta fronteira ao edifício, onde estavam talhadas em tamanho natural, várias figuras históricas, dizem os mesmos cronistas, que ali estava representada, em escultura, a morte do Beato António.

A revolução liberal veio autorizar a divisão em lotes das ruínas do Convento, para a construção de armazéns e casas particulares que ainda hoje ali existem.

João de Brito, o antecessor daquela que viria a ser a Companhia Industrial Portugal e Colónias, ficou então com a maior parte do espólio instalando, no que restava do Convento, grandes armazéns de vinho, oficinas de carpintaria, fábrica a vapor e moagem de pão e bolachas. As duas torres, que encimavam a entrada do convento, foram destruídas nesta época, assim como a fachada principal, que foi alterada pelos industriais, de modo a adaptar-se às novas funções fabris. O industrial, à semelhança do que outros fizeram naquela época, mandou construir casas para os operários e manteve algumas iniciativas de carácter social, como a criação de uma filarmónica, de uma associação humanitária para os sócios da firma e uma outra de beneficência. Foi ainda criada, pela administração daquele industrial, uma escola primária, fundada pelo Conde de Casal Ribeiro.

A Rainha D. Maria II, por proposta do Duque de Saldanha, concedeu autorização para que o industrial atribuísse a denominação de “A Nacional”, a todos os produtos da sua firma, tendo em conta os «relevantes serviços prestados ao País». Os herdeiros de João de Brito, a partir de 1919. registaram os estabelecimentos com o nome da Companhia Industrial Portugal e Colónias SARL que, posteriormente, em 1986, passaria a designar-se apenas NACIONAL – Companhia Industrial de Transformação de Cereais, S.A..

Resta acrescentar a título de curiosidade que, segundo Sidónio Miguel, todos os visitantes da Associação Amigos de Lisboa, ao efectuarem um passeio a esta igreja em 1939, dali saíram «sob a impressão desoladora dum crime cometido contra a arte e contra a cultura histórica. Sem dúvida o maior que Lisboa sofreu, depois do grande, do incrível, de Santo-Antão-o-Novo».

Palácio dos Duques de Lafões

Na calçada com o mesmo nome está situado o Palácio dos Duques de Lafões, com fundação datada de finais do século XVIII (1777).

D. João Carlos de Bragança de Sousa Ligne Tavares de Mascarenhas da Silva, segundo duque de Lafões, começou a edificar o Palácio, que possuía, em 1760, uma bela quinta anexa. As obras ficaram concluídas apenas em 1777, sendo notórias, na traça arquitectónica, as influências da arte setecentista, posterior ao terramoto. O nobre, segundo filho do infante D. Miguel, recebeu em 1779, o título de II Duque de Lafões e a ele se deve a criação da Academia das Ciências. D. João Mascarenhas foi estadista e homem público, conhecedor de todas as cortes da Europa. Aos 82 anos, ainda era general-marechal do Exército Português. Em 1801, o nobre recolheu-se ao seu Palácio, afastando-se da vida pública.

A propriedade, que foi passando, hierarquicamente, de pais para filhos, pertencia, em 1878, ao V Duque de Lafões, D. Caetano Sigismundo de Bragança. O nobre herdou os títulos e bens dos seus antepassados, à excepção dos morgados de Soure e de Marialva, dado que aqueles morgadios haviam sido extintos. D. Caetano vendeu grande parcela dos terrenos fronteiros do palácio, virados a poente, para a ampliação dos serviços de Manutenção Militar, e virados a norte, para urbanização. A quinta desapareceu completamente e os magistrais jardins foram substancialmente reduzidos, face a estas transacções.

No princípio do século XIX, quando o Tejo ainda vinha à porta do palácio e a rua do Grilo não tinha sido construída, existia ali um cais denominado dos “duques”.
Em 1946, o palácio era habitado pelo sétimo Duque de Lafões. D. Lopo Caetano, casado com Maria José da Graça Paço Viana Barreto.

Actualmente, é uma das raras casas nobres de Lisboa que ainda está habitada.
Quanto ao Palácio, segundo as palavras do olissipógrafo Norberto de Araújo, «na sua fachada, encimando o seu ângulo poente, sobre a rua do Grilo, pode ver-se uma pedra que diz: “S. Bento de Xabregas”, o que atesta que os terrenos onde se edificou a propriedade urbana e rústica pertenciam, de domínio directo, aos frades de S. Bento (depois do Beato António), cujo convento ficava para nascente» – actual Alameda do Beato.

A placa de referência, está assente na fachada de um dos edifícios contíguos, que ainda pertenciam à Casa de Lafões.

Palácio dos Marqueses de Olhão

O Palácio dos Melos, também designado por Palácio dos Marqueses de Olhão, Condes de Castro Marim, em Xabregas, terá sido um dos locais onde se reuniram alguns dos heróis da Revolução de 1640 – que restaurou a Independência nacional e quebrou o domínio castelhano.

Jorge de Melo foi o primeiro habitante desta extensa propriedade, que, lhe fora concedida pelo rei D. João III, em 22 de Maio de 1524. No entanto, o palácio só seria construído no primeiro quartel do século XVIII, sobre o núcleo principal da casa quinhentista. A enorme casa, erguida ao centro da propriedade sofreu grandes danos, com o terramoto de 1755, tendo o seu proprietário de então, D. Pedro de Melo da Cunha de Mendonça e Menezes, procedido a algumas obras de restauro, que obedeceram a um novo traçado.

As primeiras conspirações dos conjurados de 1640 foram feitas neste palácio que, na altura, pertencia a D. Vasco de Menezes, um dos 40 fidalgos partidários da causa de D. João, duque de Bragança, mais tarde Rei de Portugal.

Por morte do proprietário, o palácio dos Melos passou para D. Francisco de Melo Cunha Mendonça e Menezes, que foi o primeiro conde de Castro Marim (1802) e primeiro marquês de Olhão (1808).

No interior do palácio são visíveis os traços da arte seiscentista, com paredes grossa e maciças e corredores abobadados. Mas nota-se, igualmente, uma sobreposição de outros tipos de arte, mercê dos vários restauros efectuados. No último século, a sala de cerâmica de azulejos foi restaurada e hoje ainda podemos contemplar, na Rua de Xabregas, a magistral frontaria do edifício, que dispõe de catorze janelas em cada andar.

Igreja Paroquial de S. Bartolomeu do Beato

A igreja paroquial de S. Bartolomeu do Beato está integrada no conjunto de edifícios de que fazia parte também o convento dos “frades Grillos”.

Norberto de Araújo definiu o prédio como sendo de “uma só nave e ostenta no corpo seis capelas, três por cada lado, e duas colaterais no transepto. Pela esquerda temos a capela de S. Sebastião, onde esteve também uma tradicional imagem de N.ª S.ª das Barraquinhas (deliciosa invocação da qual não se sabe a origem, e representada numa pintura a óleo), ou de N.ª S.ª do Bom Despacho, imagem principal da capela; a seguir está a capela do Santíssimo, na qual se vê uma imagem da N.ª S.ª da Soledade. Pelo lado direito, há a capela do Senhor dos Passos, a de N.ª S.ª do Carmo e, finalmente, a capela de N.º Sr. da Cana Verde, outra pituresca invocação.

As capelas do transepto são: a do Sagrado Coração de Jesus, antiga de N.ª S.ª da Graça, e a N.ª S.ª das Dores, antiga da Soledade.

A capela-mor ostenta alguns materiais nobres, sendo o altar-mor ornado de colunas salomónicas enfloradas, em mármore policromo e coroado de armas reais. Neste altar estão as imagens de N.ª S.ª do Monte Olivete, orago do convento, de S. Bartolomeu, orago da paróquia e de S. Agostinho.

O tecto da Igreja não tem interesse: estuque em abóbada de arco de cesto. Na Sacristia vemos azulejos historiados, bons, do século XVIII; dois quadros, representando N.ª S.ª da Boa Viagem e a Fuga para o Egipto”.

A igreja, sede da Paróquia do Beato desde fins de 1835, foi fundada em 1666 por frei Manuel da Conceição, que caíra nas boas graças da rainha D. Luísa de Gusmão. Construída sob a invocação de Nossa Senhora do Monte Olivete, a igreja do Grilo (como é habitualmente designada) veio substituir a sede paroquial de S. Bartolomeu, que, inicialmente, ficava junto ao castelo de S. Jorge, e já existia desde 1168, sendo uma das paróquias mais antigas da cidade de Lisboa.

Um grande incêndio, em 1683 destruiu totalmente a igreja de S. Bartolomeu que, contudo, começou a ser reconstruída no ano seguinte. O cataclismo de 1755 não lhe causou grandes danos, mas obrigou a novos restauros, também registados em 1896 e já no século XX.

Paço Real de Enxobregas

O Paço Real de Enxobregas, fundado em 1509 pela rainha D. Leonor, esteve instalado nos terrenos onde actualmente se encontra o Asilo D. Maria Pia, o Mosteiro da Madre de Deus e o Palácio dos Marqueses de Niza. O edifício, de uma só correnteza, começava na Rua da Madre de Deus (porta principal da Casa Pia) e estendia-se até ao largo Marquês de Niza.

Vale a pena falar um pouco da personalidade da rainha D. Leonor, viúva do Rei D. João II, que fundou também as Misericórdias e outras obras de caridade. A Rainha era uma mulher infeliz. O irmão, o duque de Viseu, fora morto à punhalada pelo seu marido, El-Rei de Portugal, que mandara também matar, em Évora, o seu cunhado, o duque de Bragança. Seu filho e herdeiro do trono, o príncipe D. Afonso, morreu em Santarém, vítima de um acidente de cavalo. A rainha suportou ainda as infidelidades do marido mas, depois de ter ficado viúva, aos 37 anos, pensou em encerrar-se numa clausura onde pudesse terminar os seus dias, longe da Corte.

Depois da morte do Rei D. João II, D. Leonor adquiriu umas casas em Enxobregas, que pertenciam a D. Inês da Cunha, para ali edificar um Paço onde se pudesse entregar às devoções religiosas. As casas de D. Inês da Cunha, assim como os terrenos que as circundavam, eram conhecidas por “Conchas”, designação que se pensa ter tido origem no facto de ficarem à beira-rio.

A rainha D. Leonor mostrara sempre especial predilecção pelo sítio de Xabregas, devido à proximidade do rio e à calma que naqueles locais havia e, por isso, ali mandou então construir um convento de freiras franciscanas, sob a égide de Nossa Senhora. As primeiras sete freiras, oriundas de Setúbal, entraram no mosteiro em Junho de 1508 e, no mês seguinte, D. Martinho da Costa, Arcebispo de Lisboa, benzia a Igreja.

Para a escolha do nome que iria ter o convento, conta a tradição – descrita por Alberto Pimentel, em “Portugal Pittoresco Illustrado”, 1908 – que “entraram um dia no Paço de Lisboa dois moços, flamengos no traje, que pretendiam vender à Rainha uma linda imagem de Nossa Senhora, à qual, porventura, chamariam pelo seu mais belo e sublime título: Madre de Deus. Não podendo entender-se quanto ao preço, deixaram os flamengos a imagem em poder de D. Leonor, dizendo-lhe que em outro dia voltariam. Não voltaram mais. A Rainha, espantada do caso, que não podia explicar-se em pessoas que vinham a fazer negócio, e em tanto o estimavam, pôs a imagem na Capela Real e em suas mãos depositou as chaves do novo convento, cuja invocação estava descoberta desde essa hora: seria da Madre de Deus”. Um ano depois da fundação, a rainha D. Leonor colocava o mosteiro da Madre de Deus sob obediência da Ordem de S. Francisco.

O Paço, composto por um conjunto de vários edifícios, incluindo uma dependência conhecida como a “Casa da Rainha”, começava na Rua da Madre de Deus e prolongava-se até ao Largo do Marquês de Niza, estando integrado naquele conjunto o Mosteiro da Madre de Deus.

Em épocas posteriores, o Paço foi aumentado e calcula-se que no reinado de D. João III estivesse em obras de ampliação. Tal suposição, baseada em relatos históricos, assenta no facto do monarca ter vindo morar para Xabregas, nas casas de D. Francisco d’Eça, para fugir à peste que, entretanto, assolara Lisboa. A tese é defendida por Alberto Pimentel, mas o historiador Júlio de Castilho afirma desconhecer quais seriam as casas de D. Francisco d’Eça, em S. Bartolomeu.

Também se pensa que o Cardeal D. Henrique, em 1579, para fugir à mesma doença, se retirou para Enxobregas, de onde seguiu para Vila Franca e Salvaterra, passando por Almeirim.

Este Paço foi residência de Verão de D. João III e ali residiram, também, D. Catarina de Áustria e D. Sebastião.

Em 1640, na data da Restauração da Independência, o Paço serviu de prisão de Estado à duquesa de Mântua, Margarida de Sabóia, que chegara a Lisboa em 1635 como Vice-Rainha.

D. João IV, por desejo expresso da rainha D. Luísa de Gusmão, doou este Paço ou Palácio, à camareira-mor do Reino, a Condessa de Unhão – fidalgos que antecederam os Marqueses de Niza e mandaram reconstruir o palácio, onde fica a Casa Pia, no século XVIII.

Depois da morte de D. João Xavier de Teles de Menezes e Castro, V Conde de Unhão, casado com D. Maria José da Gama, Marquesa de Niza, a casa de Unhão ficou ligada à de Niza. D. Domingos da Gama, fidalgo boémio e de mãos largas, o último Marquês de Niza, caído em pobreza foi obrigado a vender a casa a um particular, em 1862.

Este particular, cujo nome não se tem conseguido apurar, teria em 1867 vendido a casa ao estado. E, por iniciativa da rainha D. Maria I, os imóveis foram adaptados, sendo ali instalado o Asilo D. Maria Pia, destinado a recolhimento e casa de correcção de menores. Pouco tempo depois de entrar em funcionamento, supõe-se que em Julho de 1867, um enorme incêndio destruiu praticamente todo o asilo, ficando apenas intacta a capela, de invocação de Nossa Senhora da Conceição.

Quando, em 1869, morreu a última freira clarista que habitava o Mosteiro da Madre de Deus, o edifício passou a integrar os imóveis do Asilo D. Maria Pia. Em 1928, o Asilo passou a chamar-se Escola Profissional D. Maria Pia, também conhecida por Casa Pia de Lisboa.

Acrescente-se que, no conjunto dos edifícios do Paço, designadamente em parte do que foi o Palácio dos Marqueses de Niza, esteve instalada a Escola Industrial Afonso Domingues, entre 1884 e 1956. A mais antiga escola industrial portuguesa foi, posteriormente, transferida para o local onde hoje se encontra, junto à Estrada de Marvila e em frente à Calçada do Duque de Lafões.

Alberto Pimentel defende ter sido no Paço de Xabregas que Gil Vicente representou o Auto da Sybilla Cassandra (1513), perante a infanta D. Beatriz, mãe de el-rei D. Manuel.

Hoje nada resta deste Paço Real que foi, originalmente, o primeiro prédio da Rua da Madre de Deus. No interior da actual Casa Pia de Lisboa encontram-se apenas alguns vestígios de arte, essencialmente azulejos que, contudo, não são anteriores ao século XVIII. Do mosteiro, que devido à traça modesta se julga ter sido de construção rápida, apenas existe a Igreja da Madre de Deus.

Convento de Sta. Maria de Jesus ou Paço Real de Afonso III

No Paço Real de Xabregas, que foi também Palácio e Mosteiro, segundo afirma o historiador Norberto de Araújo nas sua “Peregrinações em Lisboa”, teriam habitado, temporariamente, todos os reis de Portugal até D. João IV, à excepção dos que integraram a dinastia dos Filipes.

Onde agora está instalado o Teatro Ibérico, ergueu-se outrora, o Convento de Santa Maria de Jesus, mas, anteriormente, no século XIII, ali ficava o Paço Real de Enxobregas. Este Paço, datado quase desde o início da nossa nacionalidade, foi fundado por D. Afonso III “o Bolonhês”, que se celebrizou por ter tornado Lisboa a capital do Reino.

A tese, contudo, não encontra unanimidade entre os historiadores. No livro “Portugal Pittoresco e Illustrado”, de Alberto Pimentel, este historiador opina que “antes de D. Leonor, já tinha havido em Xabregas, um Paço Real que estava em ruínas no tempo de D. Afonso V. Sabe-se que tinha uma torre e um laranjal contínuo”. Na crónica de Fernão Lopes, o Paço Real de Santos, o de Enxobregas e o de Frielas, são citados como paços, mas não são reais, o que para Júlio Castilho atesta que nenhum rei ali morou. Em “Lisboa Antiga”, de 1934, aquele olissipógrafo comenta que “quem fundasse este paço, não o sei. Querem escritores de muita gravidade que fosse el-Rei D. Afonso III, é possível, mas ainda não encontrei documento que o provasse. Mas há mais. No seu testamento nem uma só vez, alude el-Rei D. Afonso à fundação do paço, em Lisboa e, dizendo autores modernos que em 9 de Outubro de 1261 nascera no Paço de S. Bartolomeu o príncipe que veio a ser o reis D. Dinis, nunca até agora achei essa afirmação fundamentada em autores antigos”.

Os primeiros indícios documentais da existência de um Paço Real em S. Bartolomeu surgem, exactamente, no reinado de D. Dinis. Mas, aqueles que defendem a existência do Paço Real de Enxobregas salientam que no reinado de D. Afonso III foi construída uma residência campestre junto ao Tejo, em Enxobregas, onde este monarca, e os que lhe seguiram, iam passar largas temporadas. Um dos autores da “Monarquia Lusitana” defendeu mesmo que el-Rei D. Dinis doou a seu neto, D. João Afonso, senhor de Albuquerque, uns paços na paróquia de S. Bartolomeu, onde este viveu.

O cronista defende a sua tese na seguinte afirmação: “o sítio onde D. João Afonso viveu em Lisboa, foi a paróquia de S. Bartolomeu, na qual el-Rei seu avô (D. Dinis) lhe deu uns paços que tinha por carta feita, em Lisboa, a 18 de Julho de 1317. Na carta, dizia o rei D. Dinis que “as minhas casas que hei na freguesia de S. Bartolomeu de Lisboa, que foram de Vicente Martins…”.

Porém, Júlio Castilho defende que “se essas casas fossem um paço edificado pelo ilustre pai do doador (D. Afonso III), não havia isso, por força, de constar na carta? O que se percebe é que essas casas eram propriedade de Vicente Martins e, porventura, teriam passado para D. Dinis, por compra ou deixa e que este as doou a seu neto”. Teria D. Afonso III fundado uns Paços em S. Bartolomeu e se os fundou, ali teria nascido o rei D. Dinis?

O olissipógrafo entende que estas questões não estão definidas, porque não se sabe se o prédio doado por el-Rei D. Dinis a seu neto, poderia ou não ter sido aquela casa histórica.

Por outro lado, os historiadores que defendem uma tese contrária à de Júlio Castilho, acreditam que no reinado de D. Fernando, em 1373, o Paço Real de Enxobregas foi incendiado pelos castelhanos que haviam sitiado Lisboa, a mando do rei Henrique II. Impossibilitados de entrar na capital, os castelhanos vingaram-se incendiando grande número de propriedades, nos arredores da cidade. O Paço Real de Enxobregas teria sido uma das propriedades mais atingidas, tendo ficado em ruínas.

Oitenta anos depois, foi ali construído um convento, onde se instalaram os religiosos da congregação dos Franciscanos. A transição ocorreu depois de o rei D. Afonso V ter doado, por alvará, as ruínas do paço a D. Guiomar de Castro, mulher do primeiro conde de Atouguia, que viria a ser avó materna de Afonso de Albuquerque. O alvará passado na vila de Santarém, foi assinado pelo Rei em 17 de Outubro de 1455 e nele se dizia que o terreno e os escombros do antigo Paço Real eram doados a D. Guiomar de Castro. As obras para a construção de um convento iniciaram-se ainda nesse ano e Santa Maria de Jesus, passou a ser a padroeira do templo.

O Convento de Santa Maria de Jesus ficou concluído a 17 de Maio de 1640 e ali entraram os primeiros nove frades, da Ordem de S. Francisco, vindos da Ilha Terceira. Para a história, o convento passaria a ser conhecido como Convento de S. Francisco (da Ordem dos Franciscanos) ou de Xabregas.

O terramoto de 1755 provocou, praticamente, a derrocada do convento, facto que obrigou os frades a viveram largos anos na cerva de Lisboa, em barracas de madeira. A construção de um novo convento, no mesmo local, não tardou. A fachada que ainda hoje observamos, no edifício do Teatro Ibérico, é a mesma da época, com pórtico principal encimado pelo brasão das armas do rei D. José. No convento foi então instalada a imagem de Nossa Senhora Mãe dos Homens, Santa Milagreira, um Calvário, com todas as figuras sagradas, e uma imagem da Nossa Senhora da Paz.

Frei João de Nossa Senhora, conhecido pelo Fradinho de Xabregas, foi um dos cónegos do templo, sendo uma pessoa muito conhecida na Lisboa Joanina. A igreja do Convento era ampla, com capacidade para receber cerva de mil fiéis.

Depois de extintas as Ordens Religiosas, em 1834, os frades foram transferidos e a igreja profanada. Mais tarde, foi ali instalado um quartel da Infantaria Um. O governo liberal ainda pensou em instalar no Convento uma penitenciária e um conservatório de artes e ofícios, mas em 1838, o edifício foi finalmente arrendado à companhia de Fiação e Tecidos de Algodão Lisbonense, que, contudo, ali permaneceria pouco tempo. Um grande incêndio destruiu, em 1844, a quase totalidade do edifício ficando apenas de pé a igreja profanada e algumas dependências.

A remodelação que se seguiu permitiu que, no ano seguinte, ali se viesse a instalar a Fábrica de Tabacos Lisbonense, que em 1891 se passou a designar Companhia de Tabacos de Portugal e, em 1927, Companhia Portuguesa de Tabacos, proprietária também de outros grandes armazéns, à beira Tejo, na zona de Xabregas.

A poente do edifício, em 1937, no lado que dá para o largo de Xabregas, a empresa mandou construir uma creche para as crianças do seu pessoal.

A companhia do teatro Ibérico instalou-se naquele edifício em Novembro de 1980, e ainda hoje ali se encontra.

Conventos do Grillo

Na actual Rua do Grilo existiram, em tempos, dois conventos. Um para freiras e outro para frades, designados por “Grillos”, por pertencerem à congregação dos Agostinhos Descalços e terem vestes negras com capuz. Os dois edifícios ficavam virados para a antiga Rua Direita, mas o edifício das freiras prolongava-se em direcção ao Cais do Duque, no Beato.

Falemos primeiro do convento das Carmelitas, mais conhecido pelo convento das freiras “Grillas”.

Freiras “Grillas”

O convento, erigido nos terrenos da antiga Quinta de Gonçalo Vasques da Cunha, ficava no local onde está instalado o edifício principal da Manutenção Militar. Foi fundado em 1660, pela Rainha D. Luísa de Gusmão, esposa do rei D. João IV, que nele se recolheu em Junho de 1662, ali permanecendo até à sua morte, ocorrida, em 27 de Fevereiro de 1666. Segundo cronistas da época, a Rainha D. Luísa de Gusmão ter-se-ia recolhido no convento das freiras “Grillas” por estar desgostosa com o rumo político do país. Os conselheiros do rei D. Afonso VI, seu filho, teriam aconselhado a repulsão da Rainha da Corte devido à adversidade política que manifestara com o filho.

Nas palavras de Alberto Pimentel, o convento das “Grillas” era “vasto, sem que, todavia, nada tenha de monumental. As Agostinhas Descalças não ostentavam pompas monásticas e no interior do convento há todo o aspecto de uma clausura severa: longos corredores sombrios, cellas estreitas e mal iluminadas”. O convento era disposto em três alas, formando um claustro quadrado, cujo lado sul era delimitado pelo Tejo.

O grande terramoto destruiu quase todo o convento que, posteriormente, chegou a ser reestruturado, embora a igreja tivesse de ser reconstruída de base.

Durante o período da revolução industrial, o convento sofreu profanações e a sua estrutura foi alterada para poder ser adaptado a outros fins.

Em 1888, após a morte da última freira “Grilla” e da transladação dos restos mortais da Rainha para o Panteão Nacional, foi ali instalada a Manutenção Militar, nada restando hoje do antigo convento e da igreja.

Frades “Grillos”

O Conventos dos Frades “Grilos” situado junto da actual igreja do Beato e onde funciona o Recolhimento do Grilo, na rua com o mesmo nome, foi também fundado pela rainha D. Luísa da Gusmão, em 1666, pouco tempo antes de falecer. A rainha ordenou a fundação do templo sob a invocação de Nossa Senhora do Monte Olivete, para a congregação dos Agostinhos Descalços. Um grande incêndio, em 1683, destruiu toda a igreja e grande parte do convento, mas a reconstrução foi feita quase de imediato.

O terramoto de 1755 causou-lhe graves danos, valendo o facto de não ter originado um incêndio, o qual poderia ter contribuído ainda mais para a sua degradação. Posteriormente, foi mais uma vez reconstruído.

Com a extinção das Ordens Monásticas, em 1834, o convento, que já não tinha frades desde 1829, serviu de albergue para os idosos do Recolhimento de Nossa Senhora do Amparo, que tinham estado na Mouraria. Anos depois, o albergue passou somente a designar-se de Recolhimento do grilo.

Uma lápide, de azulejos com legendas em latim, visível à entrada do Recolhimento dava-nos conta do seguinte:

EL REI
O SNR D. JOÃO. O 3.º FOI INSTIVIDOR DESSE COLLº
NO ANNO DE 1546. EL-REI
O AUGUSTISSIMO SNOR D. IOZE 1.º FOI O FUNDADOR
DO DITO COLLÉGIO NO ANNO DE 1753 SENDO SEU
SECRETÁRIO DE ESTADO E INTERCESSOR DA
O BIZADELLE O ILLUSTRISSIMO E EMMº DIOGO DE MENDONSA CORTE REAL
PROVEDOR O Pe. IOZE FERREIRA DE HORATA DEPUTADO
DA MEZA DA CONCIENCIA E ORDENS
E REITOR O Pe. IDÃO DE SAA PEREIRA FREIRE PROFESSO
NA ORDEM DE CHRISTO

As parede do templo estavam revestidas a azulejo e o tecto ornamentado com desenhos, em estuque, de figuras e legendas em relevo. Num dos cantos poder-se-ia ler “Feito em 1746” e, do outro lado, “Retocado em 1870”.

Os amplos corredores mantinham o aspecto conventual e davam acesso às celas dos frades, cujas portas eram encimadas por azulejos com legendas em latim.

Aspecto curioso é que, segundo a tradição popular, existiria uma comunicação subterrânea entre os dois conventos do Grilo, o dos frades e o das freiras. As obras efectuadas nunca tal confirmaram.

No convento do Grilo esteve instalada, a pedido do povo, a sede da Paróquia de S. Bartolomeu, em 1835.