História

A nova Cidade

O Beato é uma das mais antigas freguesias de Lisboa e, dentro das suas fronteiras, guarda realidades distintas e ricas, desde a História ao património, da dinâmica social aos serviços, concedendo à cidade, ainda uma frente de rio que está perto de ser devolvida aos seus moradores.

Lugar de antigas quintas e palacetes, o Beato prepara-se hoje para receber a terceira travessia sobre o Tejo, que dará à freguesia uma dinâmica renovada de urbanidade. Entretanto, e nos últimos anos, a requalificação social e urbana tem posto em marcha inúmeros projectos que visam melhorar a qualidade de vida das populações.

No menu de navegação, ali do seu lado esquerdo, pode aceder a toda a informação básica sobre este lugar, outrora chamado de Beato António, onde milhares de pessoas vivem e disfrutam da vida lisboeta, entre a modernidade e a tradição.

O Beato e o seu passado histórico

Longe vão os tempos em que para se sair da cidade de Lisboa, em direcção ao Norte do País, se tinha de passar pela estrada do viaduto de Xabregas. Lisboa, a capital formosa do Império, terminava na pequena povoação do Beato António (actual Freguesia do Beato), que fazia fronteira com o Concelho dos Olivais e tinha nas proximidades a aldeia de Marvila, um povoado de alguns casebres, reunidos à volta do Palácio do Marquês de Abrantes.

A transição da cidade para o campo, ainda sem os contrastes dos tempos modernos, era serena e a paisagem, enriquecida com a presença de um Tejo sadio, dominada pelos palacetes e quintas da Nobreza.

Xabregas, o centro nevrálgico não só da freguesia, mas de toda a zona oriental da cidade, era o cartão de visita dos sítios do Beato António, compreendido na então Paróquia de S. Bartolomeu, cuja origem se perde na conquista da nacionalidade.

No largo de Xabregas, onde antes o rio chegara à entrada principal do Paço Real, morada de El-Rei D. Afonso III, “O Bolonhês”, juntavam-se no final do século XIX e nos princípios do século X, as carroças de transporte dos mecanismos industriais, das matérias primas e dos primeiros produtos vindos das fábricas.

O terramoto de 1755 destruiu ou danificou grande parte dos inúmeros palácios, conventos e casas da nobreza desta Paróquia e a Revolução Liberal de 1832 que, em muitos casos, não controlou a profanação dos templos cristãos existentes, foram sem dúvida os mais importantes factores de transformação do espaço onde hoje se situa a Freguesia do Beato.

O cataclismo que abalou a cidade em meados do século XVIII teve um efeito devastador na zona oriental. Conventos, mosteiros, igrejas e o próprio Paço Real de Xabregas, em poucos minutos ruíram como castelos de cartas. Dos escombros pouco se aproveitou e a solução foi, na maioria dos casos, fazer edifícios novos.

Por outro lado, a Revolução Industrial, cujos vestígios ainda hoje permanecem em toda a zona ribeirinha oriental, alterou completamente os hábitos e costumes da população do Beato e transformou a freguesia. Os campos abertos deram lugar às fábricas e à construção de bairros habitacionais para as famílias operárias. A paisagem foi alterada radicalmente em poucos anos e, daquela época em que o Beato era campestre, restam hoje apenas as pequenas hortas do Vale de Chelas.

A Origem da Freguesia do Beato

As informações disponíveis sobre a Paróquia de S. Bartolomeu, que viria a dar origem ao Beato, não são muito fartas, pelo menos até ao século XVIII.

Historiadores com base em testemunhos de cronistas da época, defendem que a freguesia, enquanto instituição, apresentava características estáveis e duradouras e que a população estabelecia um contacto constante e afectuoso, durante toda a sua vida, com a paróquia.

Paróquia, como se sabe, foi a designação dada às freguesias, até à implantação da República, em 1910. A partir desta data os registos paroquiais começaram a transitar progressivamente para o Registo Civil.

A nível territorial, a formação da Freguesia do Beato passou por três etapas cronológicas fundamentais:

  1. A Paróquia de Santa Engrácia nasceu de uma divisão da Paróquia de Santo Estêvão, em 1569. Nos limites da nova Paróquia ficou compreendida toda a zona de Xabregas e grande parte da área que hoje conhecemos como a Freguesia do Beato.
  2. Santa Engrácia, juntamente com os Olivais, na Segunda metade do século XVIII, deu origem a uma nova paróquia: S. Bartolomeu, mercê de uma nova divisão administrativa da cidade de Lisboa.
  3. S. Bartolomeu ficou então sediado na Travessa do Rosário, em Santa Clara. Mas alterações administrativas posteriores transferiram-na para outros locais. Finalmente, no século XIX, a Paróquia foi remetida para o Convento de S. Bento, em Xabregas, – dos Cónegos Seculares de S. João Evangelista – hoje Convento do Beato, situado na alameda com o mesmo nome.
  4. No auge da Revolução Liberal, em 1835, a Paróquia de S. Bartolomeu, trocou o Convento de S. Bento pelo Mosteiro do Monte Olivete, a actual Igreja de S. Bartolomeu do Beato, onde também esteve instalado o Convento do Grillo.
  5. A extinção das Ordens Monásticas havia levado o Governo a decretar a transferência da Paróquia para o Convento dos Frades Franciscanos, de Nossa Senhora de Jesus, de Xabregas, onde mais tarde seria instalada a Companhia dos Tabacos.
  6. A mudança porém não chegaria a concretizar-se, devido à oposição do povo, porque aquele templo se encontrava em péssimo estado por causa das profanações e saques de que havia sido alvo, no decorrer das revoltas liberais.
  7. Assim, viu-se obrigado o Governo a recuar e por fim, a Paróquia foi instalada, em Novembro de 1835, no Convento de Nossa Senhora da Conceição do Monte Olivete.

No que respeita ao nome da freguesia defendem vários historiadores que teve origem num tal beato António da Conceição, que se empenhou em buscar auxílios para a construção de um convento e de uma igreja, fundados por testamento da Rainha D. Isabel de Lencastre, mulher do Rei D. Afonso V.

A Igreja que hoje conhecemos como Convento do Beato resistiu em 1755 ao grande terramoto. Em 1834, com a Revolução Liberal, o templo passou para a posse do Estado, sendo então profanado. Mais tarde o convento foi vendido a diversos particulares, sendo um deles João de Brito, um industrial que ali se estabeleceu, fazendo uma fábrica de bolachas e moagem de cereais. A fábrica viria a dar origem à Companhia Industrial Portugal e Colónias.

Dos vários Palácios edificados na freguesia do Beato, podemos ainda hoje apreciar:

  • Convento do Beato, na Alameda do Beato, hoje propriedade de “A Nacional”.
  • Convento de Santa Maria de Jesus, ou o Paço Real de D. Afonso III – onde está instalado o Teatro Ibérico, ergueu-se outrora o Convento de Santa Maria de Jesus, mas, anteriormente, no século XIII ali ficava o Paço Real de Enxobregas.
  • Conventos do Grillo – na actual Rua do Grilo, existiram em tempos dois conventos, um para freiras e o outro para frades, designados por “Grillos”. Hoje Igreja de S. Bartolomeu do Beato e Manutenção Militar.
  • Palácio dos Marqueses de Olhão – na Rua de Xabregas, onde em tempos se terão reunido, alguns dos heróis da Revolução de 1640, que restaurou a Independência Nacional e quebrou o domínio castelhano.
  • Palácio dos Duques de Lafões – instalado na Calçada Duque de Lafões, cuja fundação data de finais do século XVIII (1777).
  • Convento de S. Félix (Chelas), edificado numa extremidade do Vale de Chelas, lugar onde hoje funciona o arquivo militar.

Século a século

A freguesia do Beato é constituída por vários lugares que vão desde a Alameda do Beato até à encosta da Picheleira, passando por Xabregas e pelo Vale de Chelas – lugares repletos de história, principalmente Chelas e Xabregas.

À origem de Chelas atribuem-se algumas lendas, mas quanto ao verdadeiro significado da palavra Chelas não há certezas, embora alguns historiadores atribuem-lhe uma etimologia latina (planella chaela = pequena planície). Em relação a Xabregas a toponímia histórica não deu uma explicação segura. Devido à sua localização junto ao Tejo, há quem relacione o nome com Xavega (do árabe xabaka), rede de arrasto. O nome Xabregas também pode ser associado à existência de uma povoação romana chamada Axabrica, tendo em conta os vestígios da respectiva povoação encontrados na zona.

Séculos XII a XIV

Após a reconquista de Lisboa e arredores em 1147, o rei fez numerosas doações de terras às ordens militares e religiosas, assim como a elementos da nobreza. O território que hoje integra a freguesia do Beato existia já nos inícios do século XIII, sendo na altura constituído por vinhas, olivais e almoínhas. Em 1149 e 1150, as terras de Marvila, que na altura abrangiam parte da actual freguesia do Beato, foram doadas ao Bispo e ao Cabido da Sé de Lisboa. As inquirições de 1220 eram os grandes proprietários na zona, além da Ordem de Santiago (vinha em Chelas), o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (vinha e olival em Concha) e os Templários (vinhas, olivais e almoínhas em Xabregas e Concha).Em meados do séc. XIII, D. Afonso III terá mandado construir um paço em Xabregas, o Paço Real de Xabregas, onde actualmente fica o edifício do Convento de Xabregas (Instituto de Emprego e Teatro Ibérico). Algumas referências mencionam uma torre e um laranjal, e em 1373, o paço de Xabregas foi incendiado, ficando em ruínas até meados do séc. XV.Em 1397, foi criada a freguesia de Santa Maria dos Olivais e nela ficou incluída toda a área do actual Beato.

 

Séculos XV e XVI

Em  1455, a rainha D. Isabel deixou em testamento oito mil coroas de ouro para a obra do convento que ficaria a ser designado por Convento de S. Bento de Xabregas, sendo mais tarde convertido em sede principal da Ordem de S. João Evangelista (Loios). Por essa altura, estava concluído, a ocidente, o convento de Santa Maria de Xabregas, no local das ruínas do Paço Real, que ficaram ao abandono desde o incêndio. No século XVI, Xabregas era um lugar dos mais aprazíveis do Termo de Lisboa, com as suas hortas e pomares, e também uma praia. D. João III pretendia construir no local uns “magníficos” paços régios, mas tal obra não terá passado dos alicerces. Era na praia de Xabregas que se realizavam torneios de cavalaria, touradas e os tradicionais jogos de canas. Em 1570, frei António da Conceição, vindo de Évora para o convento de S. Bento de Xabregas, viria a destacar-se no auxílio aos pobres e nas obras de renovação do convento. Ao falecer, em 1602, tinha ganho a fama de santidade e o povo chamava-lhe o Beato António, e à sua obra, Convento do Beato António, depois mais simplesmente Beato, nome que hoje denomina a freguesia.

Séculos XVII a XVIII

Em 1640, Xabregas/Beato era um dos mais activos centros de conspiração para acabar com o domínio filipino. Um dos fidalgos conspiradores era D. Gastão de Sousa Coutinho, cujo palácio era junto à calçada que ainda tem o seu nome e onde está hoje a Escola Primária n.º 20. Em 1644, D. Gastão mandou edificar junto do seu palácio, uma ermida dedicada a N. Sª. da Restauração, da qual não restam vestígios. O palácio tinha cais fluvial próprio, onde actualmente se situa a Rua da Manutenção e onde ainda se pode observar alguns vestígios.

Em 1662 , a rainha D. Luisa de Gusmão retirou-se para uma quinta entre Xabregas e Marvila “em sitio muito agradável sobre o rio Tejo’, num lugar chamado Grilo. Ali fundou um convento de religiosas Agostinhas Descalças (no local da actual Manutenção Militar) e quase em frente outro convento para os Agostinhos Descalços (Igreja de S. Bartolomeu e Recolhimento). No final do século havia, desde Xabregas ao Beato, quatro conventos, e que ao considerarmos outros tantos que ficam perto (Santa Brígida de Marvila, Chelas, Madre de Deus e Santos-o-Novo), podemos calcular a elevada presença de frades e de freiras entre a população local.

Aquando do terramoto de 1755, que não fez muitos estragos na zona, só o Convento de S. Francisco sofreu maiores danos, e considerando o desenvolvimento local foram as razões para o Beato ter sido escolhido para se estabelecer uma das paróquias da cidade – a paróquia de S. Bartolomeu. Sendo uma das freguesias mais antigas de Lisboa, desde 1168, S. Bartolomeu tinha sede nas vizinhanças do Castelo. Depois do terramoto, esteve provisoriamente instalada na ermida de N. Sª do Rosário e mais tarde estabelecida na igreja do Beato António, também chamada de S. Bento de Xabregas.

A mudança de freguesia, do Castelo para o Beato, levou a que tivesse de lhe ser demarcado um novo território, à custa de uma parte da área da freguesia de Santa Engrácia e de outra parte retirada à freguesia de Santa Maria dos Olivais. No final do século XVIII, a freguesia do Beato tinha 380 fogos e 1500 habitantes. Em 1777, foi construído o palácio Duque de Lafões e em 1785 se estabeleceram, no Vale de Chelas, as primeiras unidades fabris – duas estamparias de chitas.

Palácios e Conventos dão lugar a Fábricas

Palácios e Conventos dão lugar a Fábricas

Em 1814 já existiam três fábricas de estamparia no Vale de Chelas, no entanto, «a verdadeira transformação do mundo rural de Xabregas/Beato ocorreu a partir da extinção das ordens monásticas, após a revolução liberal de 1832-34.»(Pelas Freguesias de Lisboa, C.M. de Lisboa, 1993) As primeiras unidades industriais importantes, estabeleceram-se em edifícios religiosos ou em palácios. A Companhia de Fiação de Tecidos Lisbonense foi a primeira fábrica a instalar-se em Xabregas, no convento de S. Francisco de Xabregas. No Convento dos Grilos, em 1835, e por já não ter frades, instalou-se o Recolhimento de Nossa Senhora do Amparo, transferido da Mouraria. A igreja passou a ser a sede paroquial de S. Bartolomeu do Beato, em 1836, vinda do vizinho convento do Beato António. Esta zona, apesar da rápida mutação em curso, continuava a ser um espaço agradável, sendo dos mais preferidos para os passeios de domingo do povo lisboeta. Em 1852, foram definidos novos limites para a cidade e construída a Estrada da Circunvalação, ficando a freguesia do Beato fora dos limites da cidade. Na mesma altura, era criado o concelho dos Olivais e nele ficou integrado a freguesia do Beato até 1886.

Caminho de Ferro e Industrialização

A inauguração do caminho de ferro, em 1856, foi um acontecimento marcante a vários níveis, não só pela dinamização da indústria, mas também pela modificação da paisagem local, através da abertura das barreiras e de infraestruturas como a ponte de ferro Xabregas (proj. do Eng. Valentine, 1854). Outro marco histórico foi, em 1854, a fundação da Fábrica de Fiação de Xabregas, de proprietários estrangeiros, iniciando a laboração em 1858, depois de se constituir em Companhia do Fabrico de Algodões. Trabalhando várias pessoas, foi por iniciativa dos proprietários da fábrica que foram edificadas, em 1867 e 1877, as primeiras vilas operárias em Xabregas. Em 1888, foram construídas mais duas vilas, de maiores dimensões, a Vila Flamiano (inicialmente destinadas aos mestres e contramestres) e a Vila Dias (para os operários). Ao todo foram construídas 106 casas no bairro operário da Companhia do Fabrico de Algodões.

De grande importância foi também a Fábrica de Fiação de Tecidos Oriental, fundada em 1888, na rua de Xabregas (onde actualmente funciona um centro comercial) e que empregava 425 operários. Na rua de Xabregas e na rua do Grilo existiam armazéns de retém e droguistas. Nos finais do século XIX, trabalhavam nas fábricas de Xabregas entre 800 a 1000 operários, surgindo na altura um forte movimento associativo, como, em 1903, a cooperativa “A Xabreguense’ (Beco dos Toucinheiros) e Cooperativa Operária Oriental (Largo de Dom Gastão). O receio de uma revolta operária, resultado de anteriores greves e lutas por parte dos operários das várias fábricas existentes na zona, foi motivo de instalação de esquadra da policia na Vila Dias.

No entanto, as quebras demográficas nos censos de 1920 e de 1960, resultam da redução da área da freguesia, com a criação da freguesia Penha de França, em 1918, e com a remodelação administrativa de 1959. (Informação retirada da publicação – Pelas Freguesias de Lisboa – C.M. de Lisboa, 1993).

Em 1896, foram inauguradas as Cozinhas Económicas (rua de Xabregas, 44) garantindo um mínimo de alimentação a muitas famílias operárias que viviam numa situação onde as condições de vida, trabalho e habitação eram cheias de dificuldades.

No ano de 1900, a freguesia do Beato tinha 2215 fogos e 10 398 habitantes. Mais tarde, em 1922, são suprimidas as barreiras fiscais à entrada da cidade e em 1925, arrancava a 3ª fase de construção do Porto de Lisboa. Nessa época a zona era descrita assim:«bulício industrial, rumorejante de trabalho, as fábricas, as oficinas, armazéns, cais, caminho de ferro, vida viva que Lisboa central não conhece senão de passar de eléctrico debaixo do viaduto do comboio, indiferentemente». (Pelas Freguesias de Lisboa, C.M. de Lisboa, 1993).

Em 1933, na Vila Maria Luísa existia uma escola primária para rapazes (Escola Primária n.º 20), sendo nessa altura as aspirações da freguesia equipamentos como uma escola feminina, um balneário público, um mercado, e infra-estruturas como iluminação, abastecimento de água e esgotos.

No inicio da década de 40, começou a obra do bairro social da Madre de Deus, foi aberta a Av. Infante D. Henrique e começou a ser executado o Plano de Melhoramentos do Porto de Lisboa. Nos anos 50, é realizada a inauguração do Mercado de Xabregas e a remodelação administrativa da freguesia, em 1959, que lhe fixou os limites actuais.

Em 1965, o plano inicial de urbanização de Chelas, previa a transformação da área industrial do Vale de Chelas em área urbanizada. No entanto, nos anos 70, a imagem do local era descrita como um desolador “cemitério de fábricas’, situação que ainda hoje existe.

História da Indústria no Beato

A industrialização e a expansão burguesa, proporcionada pelo Liberalismo, foram factores decisivos para a mudança do espaço desta freguesia, verificada a partir de meados do século XIX.

Ao lado das fábricas erguidas, na grande maioria das vezes a partir de casas religiosas, começaram a ser edificadas habitações para as famílias operárias, regra geral as mais carenciadas. Nasciam assim as Vilas Operárias.

Uma nova classe social apareceu então em Portugal: o operariado.

A extinção das Ordens Religiosas e a consequente venda em hasta pública dos edifícios, decretada pelo Governo Liberal, incentivou o estabelecimento industrial na zona oriental de Lisboa.

A proximidade do Tejo foi sem dúvida um contributo decisivo para que se concretizasse a industrialização do Beato, o mesmo sucedendo no final do século XIX com a inauguração do caminho de ferro. A necessidade de escoamento das mercadorias motivaria a ampliação do Porto de Lisboa, desde Santa Apolónia a Cabo Ruivo.

A indústria foi cimentando raízes na parte sul da cidade, em contacto directo com o rio, formando uma cintura que ligava a parte Este e a parte Oeste.

Segundo o historiador Alberto Pimentel, no princípio do século XX, em 1908, existiam no Beato as seguintes unidades fabris:

  • Fábrica João de Brito (hoje fábrica “A Nacional”);
  • Fábrica de preparo de cortiça, de José Viallonga;
  • Fábrica de licor, de Moraes Ferrão & Irmãos;
  • Companhia Portuguesa de Fósforos;
  • Fábrica de Sabão, pretencente à viúva Macieira & Filhos;
  • Fábrica de Sabão, pertencente a Sousa & Cia.;
  • Fábrica de Grude, de Ignácio de Magalhães Basto & Cia.;
  • Fábrica de Fiação e Tecidos de Lã, de José Lourenço Madely & Filhos;
  • Fábrica de Fiação e Tecidos de Lã, de José Pedro Mattos;
  • Fábrica de Fiação e Tecidos de Lã, de Ignácio de Magalhães Basto & Cia.;
  • Fábrica de Fiação.

A sede da Companhia da Borracha-Monopólio de Portugal, uma Associação de Socorros Mútuos, com o título do Marquês de Abrantes e a Escola Feminina Casal Ribeiro, eram outros estabelecimentos localizados por Alberto Pimentel, no Beato.

A zona do Vale de Chelas, tal como hoje a conhecemos, reflecte a paisagem industrial do século passado, sendo actualmente conhecido como “o cemitério de fábricas”.

Presente e Futuro

Na zona oriental, com incidência na freguesia do Beato, existe desde 1970 o Plano de Urbanização do Vale de Chelas.

Este Plano surge da necessidade de transformar uma zona velha e degradada, prevendo a sua reabilitação no âmbito da habitação, infra-estruturas viárias, equipamentos desportivos, sociais, de lazer e segurança.

Este Plano tem vindo a ser sistematicamente adiado e hoje a freguesia do Beato, através do Plano de Urbanização do Vale de Chelas, viu nos anos 2000 e 2001, serem derrubados os primeiros bairros de barracas, Casal do Pinto e Quinta dos Embrechados. Nestes locais surgiram as novas urbanizações, Bairro Carlos Botelho e urbanização da Rua João Nascimento Costa.

Quanto às infra-estruturas viárias e equipamentos sociais, desportivos, de segurança, bombeiros, de saúde, etc., continuamos a aguardar que os mesmos sejam construídos.

O Plano de Urbanização da Zona Ribeirinha Oriental, é um plano oportuno e desejado.

O longo período de indefinição, decorrido num quadro em que se intensifica fortemente a pressão de interesses sobre esta zona da cidade, contribui para acentuar os riscos de uma reconversão que contraria o real potencial de desenvolvimento e modernização equilibrada, que se pretende nesta área urbana de grande complexidade.

A nosso ver é errado privilegiar como objectivo principal do Plano de Urbanização da Zona Ribeirinha Oriental, as amplas áreas devolutas e expectantes e o problema de envelhecimento das populações residentes.

Em nosso entender deve considerar-se na sua globalidade o conjunto de realidades existentes (social, urbana, económica e patrimonial) e planear a partir destas.

É positivo o alargamento da área abrangida até à zona ferroviária de Santa Apolónia, sendo útil a inclusão da própria estação nessa área.

Consideramos o Plano de Urbanização da Zona Ribeirinha Oriental, um projecto de grande impacto para esta zona, no entanto entendemos que este deve respeitar a vertente histórica desta zona, no que respeita às actividades económicas.

A perda de população em Lisboa, não resulta da escassez de oferta de habitação, mas sim dos valores especulativos infligidos por promotores imobiliários, os quais têm vindo a privilegiar as camadas sociais mais elevadas, o que na nossa opinião deve ser contrariado.

A proximidade do rio deve funcionar não como valor estratégico, mas sim como factor estruturante e de valor paisagístico. O rio funciona como via de comunicação e de valor económico, assumindo assim um carácter de interesse público.

O factor habitacional não deve funcionar como factor especulativo devido à proximidade do rio, devendo estes aspectos serem salvaguardados.

Admite-se que o factor habitacional ganhe uma maior importância nesta área, pelo que deve existir um cuidado especial na análise destes problemas, em função de um crescimento equilibrado e racionalizado, de forma a conseguir-se uma boa planificação.

Assim, entendemos que o Plano de Urbanização do Vale de Chelas e Plano de Urbanização da Zona Ribeirinha Oriental, deverão enquadrar-se nas grandes áreas envolventes. Considerando:

1. Adequar a transformação destas áreas de acordo com a intervenção levada a efeito no Parque das Nações, salvaguardando as características específicas desta zona.

2. Requalificação das áreas habitacionais, na base de um inventário que valorize e preserve nomeadamente o património habitacional operário e de características populares, historicamente acumulado (Vilas Operárias).

3. Acrescentar o Parque da Bela Vista, ao longo da via férrea, desde o Areeiro até Braço de Prata, englobando Vale de Chelas, Salgadas, Madre de Deus e Braço de Prata.

4. Criação de um forte eixo rodoviário marginal contínuo. Melhoria das acessibilidades rodoviárias, nomeadamente a articulação entre a rede principal e as vias secundárias e o acesso às zonas confinantes da cota mais alta. No Beato acesso a toda a freguesia, Picheleira, Xabregas, Madre de Deus, etc..

5. Melhoria da rede de transportes colectivos e estudo da possibilidade de um meio de transporte de maior capacidade, nomeadamente uma linha de eléctricos modernos.

6. Criação de condições que propiciem o rejuvenescimento e diversificação social da população residente, com criação de meios que visem a articulação com a população e a história local.

Como conclusão, relativamente aos projectos referidos, reafirmamos que a requalificação deve ter em conta:

  • Uso do solo do tecido económico social;
  • Fixação da população existente, dado tratar-se de uma população pobre;
  • Salvaguarda de espaços para instalação de equipamentos desportivos, sociais, de lazer, quartel de bombeiros, centro de saúde, esquadra de polícia e hospital da zona oriental;
  • Salvaguardar os índices de volumetria e densidade, previstos no PDM;
  • Salvaguarda do património cultural, em particular Vilas Operárias;
  • Salvaguarda da possibilidade de um transporte sobre carris, Santa Apolonia / Cabo Ruivo.